A letra mata?

10 de outubro de 2022

A Letra mata?

Textos como 2 Coríntios 3.6 (“a letra mata, mas o espírito vivifica”) e Romanos 7.6 (“servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra”) devem ser entendidos à luz de seus contextos. É óbvio que eles não podem estar, de fato, menosprezando a Palavra de Deus. Qualquer cristão de bom senso saberia que essa interpretação deve ser descartada. Sendo assim, como devemos entendê-los?

O texto de 2 Coríntios 3.6 está condenando a letra “da lei de Moisés” (2 Co 3.7). A Bíblia deixa claro que o homem pode “tentar” obter sua salvação por dois meios: pela guarda da lei ou pela fé em Jesus Cristo. Entretanto, quem quiser ser justificado pela guarda da lei está num beco sem saída, já que Deus exige uma obediência perfeita (Gl 3.8-10; Tg 2.8-11). Como ninguém é capaz de satisfazer tal exigência, conclui-se que esse caminho é um caminho de morte. Nesse sentido, a letra (da lei), como meio de justificação, mata, ou seja, leva à morte. Porém, aqueles que são justificados em Cristo, os quais nascem de novo pela ação do Espírito (Jo 3.5-7), obedecem não para serem salvos, porque já foram. Obedecem porque são regenerados por esse mesmo Espírito (Tt 3.5). Daí o contraste: “a letra mata, mas o Espírito vivifica”.

Em outras palavras, temos, de fato, uma relação com a lei. Não a obedecemos como meio de justificação, pois esse caminho leva à morte e somos justificados pela fé em Jesus (Gl 2.16). Contudo, procuramos obedecê-la como um meio de santificação, visto que fomos vivificados pelo Espírito Santo e, nesse estado, temos prazer na lei de Deus (Rm 7.22).

Logo, a “letra” que mata não é a letra da Palavra de Deus, mas a letra da lei como meio de justificação. Só isso.

O texto de Romanos 7.6 segue na mesma linha. Basta ler o versículo inteiro para perceber que a “letra” mencionada nele é a letra da lei também, não a letra da Palavra de Deus. Portanto, a interpretação para Romanos 7.6 é rigorosamente a mesma que foi dada para 2 Coríntios 3.6.

Por que, então, alguns crentes – especialmente pentecostais e neopentecostais – tentam colocar o apego à Bíblia ou às doutrinas bíblicas como algo de menor importância, como se o que valesse, de fato, fosse apenas nossa relação com o Espírito?

Se houve uma época em que a Igreja foi realmente cheia do Espírito Santo, essa época foi logo após o Pentecostes (At 2.1-4). E qual foi a preocupação dessa igreja verdadeiramente cheia do Espírito? Perseverar na doutrina! (At 2.4, 42).

Que espécie de igreja ou de crente é esse que menospreza doutrinas, que menospreza os ensinos da Palavra de Deus? Esses tais deveriam ler e reler o Salmo 119, onde o salmista, inspirado por Deus, exalta o valor das Escrituras em praticamente todos os seus versículos (por exemplo, dê uma olhada nos versos 2, 5-7, 9-11, 15, 16, 18, 43, 44, 47, 50, 53, 67, 71, 77, 92, 93, 97, 99, 100, 103, 105, 112, 127, 158, 165).

Esses “espirituais” deveriam conferir o apreço que nosso Senhor Jesus Cristo tinha pelas Escrituras, pois foi Ele mesmo quem disse: “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mt 22.29) e “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39).

Esses crentes “nível 10” deveriam imitar os crentes bereanos, de Atos 17.11, os quais conferiam na Palavra de Deus tudo que era dito como se fosse de Deus. Se todos fizéssemos isso nos dias de hoje, dificilmente esses ensinos que desprezam as doutrinas bíblicas teriam obtido algum sucesso.

Apegar-se à Bíblia é uma forma de honrar o Espírito Santo, que foi quem a inspirou.

Lembre-se do Sola Scriptura. A Reforma Protestante e a Teologia Reformada conclamam o povo de Deus a que retorne às Escrituras. Chegou a hora de aprendermos doutrinas.

Presbítero Kleber Cavalcante

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