A origem do mal e o seu fim
28 de julho de 2020
Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal.”
Gênesis 3.5
E aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras.”
Apocalipse 21.5
Ao olharmos à nossa volta e vermos tantas maldades, pluralizadas nas mais diversas manifestações – o sofrimento, a fome, a imoralidade, as doenças; até mesmo crianças sofrendo por serem abandonadas pela falta de amor; centenas de vidas serem ceifadas por catástrofes naturais como inundações e terremotos –, somos sobressaltados com algumas perguntas intrigantes: de onde procede todo esse mal? Por que ele existe? Ou, ainda, será alguém culpado? E de forma audaciosa, alguns ainda ousam perguntar: “Onde está Deus, diante de tudo isto que acontece?”.
O primeiro livro da Bíblia, Gênesis, conhecido como o livro das origens, descreve, em Gênesis 1.1 a 31, a criação de todas as coisas, inclusive dos seres humanos, e o versículo 31 declara que “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”. Não há nenhuma menção do mal. Destaca-se que o homem fora criado à imagem e semelhança de Deus, seu criador (Gn 1.26-27). Essas palavras, imagem (tselen) e semelhança (demuth), expressam a ideia e possibilidade de o ser humano ter várias características comuns inerentes ao próprio Deus. Elas nos trazem a ideia de uma cópia xerográfica. Tanto na cópia em preto e branco como na colorida, vemos a grande semelhança entre elas e o original, mas, mesmo assim, conseguimos distinguir ambas. Ou seja, a cópia tem traços muito parecidos com o original, mas não é o original. Até nas autenticações que lhe conferimos em cartório, ainda assim, continua sendo uma cópia. Isto nos faz pensar na diferença entre Jesus, o Filho unigênito e legítimo de Deus, e os demais filhos de Deus gerados em Cristo por adoção. Entretanto, este é um tema para outra reflexão.
Após alguns relatos da criação do homem e da mulher, constatamos pela primeira vez o mal sendo mencionado em Gênesis 2.17. Essa primeira referência é sobre a árvore que Deus utilizou para testar a obediência do homem. Tudo na criação lhe estava à disposição, menos aquela árvore. O nosso primeiro texto básico (Gn 3.5) destaca que ela foi o instrumento para provar o homem em sua liberdade de escolha, ou seja, no uso do seu livre arbítrio. Sim! Aquele primeiro homem tinha total arbítrio sobre suas ações. Ainda nesse contexto (Gn 3.22), uma outra árvore é destacada; ela é chamada de árvore da Vida. Esta, assim como as demais, não lhe fora proibida e, pelo que o texto indica, o homem não chegou a comer dela. Falaremos dela mais à frente.
Com efeito, o capítulo 3 de Gênesis é o capítulo mais tenebroso da história. Não só para o ser humano, mas para toda a criação. É quando aquele homem perfeito desobedece a Deus e come da árvore que lhe fora proibida, ou seja, ele tem, pela primeira vez, o contato experimental com o mal.
Antes desse terrível ato, tanto o homem como a mulher, bem como toda a criação, desfrutavam de um relacionamento harmonioso entre si. Até mesmo quanto à alimentação, ainda não existia o perigo de animais e seres humanos devorarem uns aos outros, pois o relato de Gênesis 1.29-30 diz que tanto aqueles primeiros seres humanos bem como os animais e aves se alimentavam das ervas e frutos que a natureza lhes proporcionava. E também, Gênesis 2.25 acrescenta que esse casal vivia nu e nem por isso se sentiam constrangidos. Ou seja, equilíbrio, harmonia e simplicidade parecem descrever muito bem a convivência entre seres humanos e a criação quando foram inicialmente criados e trazidos à existência pelo Criador.
No início de Gênesis 3, temos a narrativa do diálogo da serpente com a mulher, que a induz a comer da árvore do bem e do mal. E como ato subsequente, a mulher leva o homem a comer daquela árvore também. Perceba que a serpente usa de malícia, engano e maldade naquele diálogo com a mulher, manipulando as palavras. Percebemos que já existe maldade nela. Essa serpente é descrita na Bíblia como sendo Satanás (Apocalipse 12.9 e 20.2); um anjo expulso do céu por sua rebeldia contra Deus. Ele é identificado metaforicamente em Ezequiel 28.11 a 19, na profecia contra o rei de Tiro; e, além disso, é o mesmo Satanás que tentou Jesus no início dos Evangelhos.
Como o mal se manifestou nesse anjo, cuja rebelião contra o Senhor ainda levou vários outros anjos a serem expulsos e, por conseguinte, se tornarem demônios, não sabemos (2Pd 2.4 e Jd 6). Ademais, não temos detalhes na Bíblia sobre a origem do mal neles. É um dos temas que Deus reservou para Ele e não nos revelou (Dt 29.29). Fato sabido é que esse anjo caído foi o primeiro a se deixar influenciar pelo mal, e é quem desperta a cobiça no homem e na mulher, levando-os a desobedecerem e a comerem da árvore do bem e do mal e, com isso, pecarem contra Deus.
Destaca-se que esse primeiro homem era perfeito, criado com semelhanças ao seu Criador e, portanto, capaz de fazer suas escolhas com total liberdade e responsabilidade. O texto de 2 Timóteo 2.14 diz que o homem não foi iludido pela serpente, mas sim a mulher. Ou seja, ele comeu do fruto por que escolheu comer. E como tinha primazia sobre a mulher, pois foi criado primeiro (1 Co 11.8-9) e era quem havia sido responsabilizado para tomar conta do jardim de Deus (Gn 2.15-17), o mal só lhes é manifesto após ele, que era o responsável, comer da árvore proibida (Gn 3.7). É o que nos declara a frase “Abriram-se, então, os olhos de ambos” neste versículo citado, e que aponta para quando o fato aconteceu, ou seja, a percepção do mal.
A partir desse ato de desobediência, o homem pratica o mal e terríveis consequências vêm da parte de Deus sobre ele, a mulher e sobre toda a natureza criada (Gn 3.14-19). Eles logo percebem a sua nudez (Gn 3.7), sentem vergonha e medo (Gn 3.8 e 10) e começam a se esquivar de suas responsabilidades, mentindo e acusando um ao outro (Gn 3.12 e 13). Para cobrir sua nudez, um animal precisou ser morto a fim de Deus lhes preparar vestes adequadas (Gn 3.21). Sua alimentação não mais seria conseguida facilmente na natureza, mas teria que se esforçar para obtê-la, e a morte física passou a fazer parte da sua realidade de vida (Gn 3.19) e também dos animais (Gn 9.3).
Agostinho de Hipona, um dos grandes expoentes da teologia cristã nos primeiros séculos do cristianismo, descrevendo o homem em sua condição, antes e depois da manifestação do pecado, o qualifica no primeiro momento da criação como “posso pecare” ou sujeito a pecar. Ele era perfeito e livre, portanto com disposição para escolher. A frase “e ele comeu”, ao final de Gêneses 3.6, está na voz ativa e não na passiva, o que indica que ele deliberadamente escolheu comer. Ele poderia não comer, mas escolheu desobedecer e comer, cedendo ao mal e caindo assim em pecado.
É importante relembrarmos que o homem fora criado à imagem e semelhança de Deus. Portanto, perfeito e sem pecado. Este primeiro homem criado tinha, de fato, plena e total liberdade de escolha em suas ações. Ele é assim definido pela Confissão de Fé de Westminster:
“[…] Deus criou o homem, macho e fêmea, com almas racionais e imortais, e dotou-as de inteligência, retidão e perfeita santidade, segundo a sua própria imagem, tendo a lei de Deus escrita em seus corações, e o poder de cumpri-la, mas com a possibilidade de transgredi-la, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, que era mutável. […]” (CFW – IV, II)
Ou seja, este primeiro homem tinha, de fato, livre-arbítrio; liberdade para julgar, decidir e alterar a sua natureza. Seu estado de perfeição lhe davam características especiais que permeavam sua vontade, razão e emoção e lhe davam as condições necessárias para resistir ao mal. Mas, infelizmente, ele, por sua livre escolha, cedeu ao mal. Mesmo tendo “perfeita santidade”, não resistiu à tentação, não fazendo prevalecer o bem que nele havia. A tentação não é pecado, mas ceder a ela e consumar o fato sim. Conforme diz Tiago 1.14 e 15 “… cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”. O homem cedeu à tentação proposta pela serpente de ser “como Deus”, um conhecedor do bem e do mal (Gn 3.5). E assim, o mal passou a ser parte da sua natureza e da nossa vida.
Talvez alguém questione que ele não morreu. De fato, fisicamente não, mas espiritualmente, sim. Pois morte em relação a Deus, nem sempre quer dizer a perda do fôlego de vida, ou uma aniquilação, mas sim, ser banido da Sua presença. A Confissão de Fé de Westminster também defende este entendimento ao dizer que “Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma.” (CFW, VI, II). Não é por acaso que o texto de Efésios diz que, quando Cristo nos encontrou, estávamos “mortos em delitos e pecados”, e afirma que só é possível ter vida com Deus se Ele, por sua graça, nos tirar da morte para a vida (Ef 2.1-5).
Visto esta retrospectiva da criação e as primeiras manifestações do mal, ao refletirmos sobre a questão da origem do mal, um olhar rápido para a narrativa da queda nos faz perceber claramente que o mal primeiro se manifestou em Satanás, a serpente, e este é quem o apresenta ao homem. Por sua vez, o homem, deliberadamente, o escolheu abraçar, quando tinha todo potencial necessário para recusá-lo, ou seja, para resistir ao mal.
Portanto, o mal que nos afeta se origina, num primeiro momento, em Satanás, e, num segundo momento, no homem. Como o mal se manifestou em Satanás, como já dito, não sabemos. Mas, como ele se manifestou no homem, e neste mundo que vivemos, a resposta nos é apresentada nos relatos bíblicos – foi o diabo quem induziu o homem e ele cedeu ao mal.
Se observarmos com atenção, o início do texto de Gênesis 3.5 “Porque Deus sabe que…”, sim, Deus sabia. Na sua onisciência, Ele sabe de todas as coisas e nada o surpreende (Is 46.9-10; Sl 139.1-4). O que Deus não fez foi manipular a decisão humana, mas dar-lhe liberdade para escolher. E, infelizmente, mesmo em sua perfeição, o homem não conseguiu resistir ao mal.
Ao perceber o mal em nós e à nossa volta, como descrito resumidamente na introdução, temos, por essa reflexão, as respostas de onde ele procede e como nos atinge. É tudo consequência da tentação da antiga serpente e da queda do homem em pecado após a criação, pois, até então, segundo o Criador, era tudo muito bom (Gn 1.31). De fato, as consequências do mal são as mais terríveis. Na continuidade do relato de Gênesis 3, elas são apresentadas pelo próprio Deus a cada um dos infratores: a serpente, a mulher e ao homem; e essas consequências também alcançam a criação – natureza e animais (Rm 8.20-22). No entanto, como a responsabilidade de cuidar do Jardim era do homem, porque foi com ele que Deus havia feito o pacto de obediência (Gn 2.15-17), a partir da queda de Adão, todos os seus descendentes se tornaram contaminados por essa semente do mal chamada pecado e não conseguem por si mesmos escapar da morte, ou deixar de praticar o mal. Nesse sentido, basta ver alguns capítulos à frente na narrativa de Gênesis, nos quais já é possível perceber o aumento da maldade na humanidade, como inveja, assassinatos, bigamia (Gn 4.8,23-24), o que levou Deus a enviar o dilúvio como um ato de juízo sobre aquelas primeiras gerações (Gn 6).
Não devemos deixar passar despercebido que, naquele Jardim, havia outra árvore – a da Vida. Se o homem tivesse escolhido comer dela, antes de comer da árvore do mal, teria perpetuado sua santidade e completa felicidade. Era uma questão de escolha e prioridade. Pena que ele escolheu tentar ser como Deus e não simplesmente obedecer a Deus. Por isso, a atitude divina de expulsá-lo do Jardim, após se tornar conhecedor do mal (Gn 3.22), pode não parecer, mas é também, além de um ato de juízo de Deus por sua desobediência, um gesto da bondade de Deus para com ele e nós. Se ele lá permanecesse e tivesse acesso à árvore da Vida, perpetuaria sua condição de pecador e escravo do mal.
Em seu grande amor e bondade, Deus, logo após a desobediência do homem, prometeu enviar um redentor. Um descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente, restauraria a vida espiritual do homem e eliminaria os males que ele provocou a si mesmo e à criação (Gn 3.15; Cl 2.13-15).
Sabemos que esse Redentor é Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus.
O primeiro homem perfeito falhou num jardim perfeito. Jesus é o segundo homem perfeito, que permaneceu fiel em um mundo caído e venceu a tentação do diabo (Mt 4.11, Rm 5.19 e 21). Ele, com sua morte e com seu sangue, pagou o preço necessário para redimir o homem de sua condenação eterna, tirando-o das trevas para a luz (Cl 1.13-14) e da morte para uma nova vida (Ef 2.1-5).
Por fim, sabemos como o mal começou e que, em breve, ele findará. O diabo e o homem escolheram o mal, mas Deus, em sua misericórdia, e em seu grande amor, ainda nos proporciona um caminho para retornarmos ao Jardim e desfrutarmos da vida e do bem. O mal que nos assedia e nos aflige é uma realidade presente, mas não para sempre. Deus tem determinado o seu fim (Ap 21.1-5).
Hoje, Ele convida a todos, homens e mulheres, a retomar ao caminho do bem e a uma nova vida através de Jesus Cristo (At 4.12).
Pastor Edilson Martins
Colaboração: Presbítero Carlos Augusto Amoras
